Gorduras saturadas, colesterol e saúde: A inexistente relação

Não há evidências conclusivas de que uma dieta baixa em gorduras e tenha benefícios para a saúde .Por que os médicos insistem em reduzir gorduras saturadas?

perfect_bacon_and_eggs_16b7orc-16b7ormdesta vez vou falar de um tema que, a priori, escapa o que são as minhas competências. Sou consciente disso. Eu sempre disse que um treinador não deve falar de dietética, que para isso estão os profissionais, mas acredito que a ocasião merece. Em primeiro lugar, porque eu não vou interpretar ou opinar sobre o tema, mas apenas dar a conhecer a informação que se apresenta no último editorial de OpenHeart. Segundo, porque este texto foi publicado originalmente em inglês e, assim, todos os leitores poderão entendê-lo. E em terceiro e último lugar, porque, tal e como funciona a indústria, certamente ninguém herdar a este tipo de informação, se não fosse por estas ações. Prova disso é que isso que vocês estão prestes a ler surpreender a mais de um.

A relação entre gordura saturada, colesterol e saúde é um tema que leva rondándome da cabeça desde que eu assumi o do blog, chegando mesmo a escrever um post sobre a injusta demonizar as gorduras. Mas não decidi fazê-lo até que uma publicação científica sólida e de grande credibilidade, o que tem feito por mim, com argumentos e conclusões suficientemente diretas e claras como as que, ao longo deste post relatar. Não há nada mais difícil do que ir contra a opinião popular e se você acha isso mais vale ter uma boa fonte de informação, ou se tomam por louco no melhor dos casos.

OpenHeart é um jornal online de livre acesso, publicado pelo British Medical Journal e a British Cardiovascular Society. O primeiro deles tem todo o meu respeito por ter publicado vários estudos e reportagens surpreendentes, não por seus resultados, mas pelo lugar em que deixavam a alguns dos lobbys mais importantes e que mais influência costumam ter em investigação e divulgação científica. No texto seguinte relato a informação que OpenHeart nos brinda em seu editorial do dia 7 de Março de 2014. Nele encontro 39 estudos, embora, neste post nombraré aqueles que me parecem mais significativos, seja por seus resultados ou o enorme tamanho da amostra. No caso de desejar acessar o texto original lembre-se que OpenHeart é um jornal online de acesso livre e você pode obtê-lo gratuitamente no seu site.

A relação entre gordura saturada, colesterol e saúde cardiovascular remonta aos anos cinquenta, quando Keys lançou uma relação curvilínea relacionando consumo de gorduras saturadas e morte por acidentes cardiovasculares de seis países (Keys, 1953). O que mais tarde se soube é que, originalmente, o número de países estudados foram 22 e que eliminou os 16 onde não existia essa relação. Quando voltava para analisar os dados dos 22 observava-se que não houve relação estatística que já publicou. Uma vez publicado o estudo original onde se analisavam apenas esses 6 países selecionados a informação se espalhou como pólvora, todos os profissionais de saúde fizeram-se eco, e assim, temos permanecido durante esses 60 anos.

Duas décadas depois, em 1977, o governo dos EUA, para o início da epidemia de obesidade e diabetes, que hoje conhecemos, recomendou a seus profissionais de saúde para reduzir o consumo de gorduras saturadas e aumentar o consumo de hidratos de carbono com base na ideia errada de que, se as gorduras saturadas aumentava o colesterol também devem estar relacionadas com acidentes cardiovasculares. Também levou em conta a ideia de que as gorduras o macronutriente com maior densidade calórica, desta forma, o consumo de calorias reduzindo, assim, ajudando a combater os níveis de obesidade, diabetes e síndrome metabólica. O que aconteceu depois de surpreender a mais de um. Os níveis de obesidade e diabetes são acionados a partir desse momento, enquanto que o consumo total de gorduras saturadas diminuía e, no pior dos casos, se mantinha. Tudo apontava como principal causa o tipo de nutrientes cuja ingestão tinha aumentado: Os carboidratos refinados.

Esta informação casa à perfeição com dois estudos publicados mais recentemente no ano de 2008, onde se compararam dois grupos, um deles com uma dieta baixa em gorduras saturadas (<10%) e alta em carboidratos, e o outro com uma dieta de mesma ingestão calórica (1500Kcal/dia), mas alta em gorduras saturadas e baixa em hidratos (12%). O grupo que consumiu uma dieta alta em gorduras obteve melhores resultados na medição da composição corporal, lipídios, tolerância à glicose, inflamação e marcadores trombogénicos. Além disso, a dieta baixa em hidratos e alta em gordura saturada aumentou os níveis de colesterol “bom” (HDL-C) e reduz o “ruim” (sdLDL), todo o contrário do que ocorreu no grupo com a dieta baixa em gordura e alta em hidratos. (Volek et al, 2008; Forsythe et al, 2008)

Quanto ao consumo total de gorduras, um estudo levado a cabo pelo Womens Health Initiative (WHI), onde se analisaram nada mais e nada menos do que 48.835 mulheres NÃO observou nenhuma melhora na saúde cardiovascular (Howard et al. 2006). Outra meta-análise (Siri-Tarino et al. 2010), onde se cruzaram os dados de 21 estudos com um total de 347.747 participantes observou-se que as gorduras saturadas NÃO incrementaban o risco de ter um ataque cardíaco e outras doenças do sistema cardiovascular.

Outra questão a ter em conta que preocupa especialmente a OpenHeart é a mudança sistemática que estamos vendo de gorduras saturadas por outro tipo de gorduras poli-insaturadas Omega-6 como o de soja e outras gorduras vegetais comumente conhecidas como gorduras “saudáveis” e que, segundo os estudos, poderiam ser muito piores do que as primeiras, devido à sua relação com câncer, depressão do sistema imunológico e diminuição do colesterol “bom” HDL-C. Além disso, parece que começam a aparecer evidências que relacionam diretamente com alguns tipos de câncer como de próstata ou mama. De acordo com OpenHeart, o risco de contrair este tipo de doenças aumentaria ao alterar as gorduras saturadas por polinsaturadas W6. Isso pode acontecer quando o indivíduo decide modificar sua dieta em função de que todo o sistema publicitário da indústria, através de publicidade em meios de comunicação e na própria embalagem, dá para entender como uma dieta saudável. Basta ver o crescimento que teve nos últimos anos, os produtos de soja ricos, segundo a indústria, em “gorduras vegetais saudáveis”, quando se trata de as acima mencionadas gorduras polinsaturadas W6.

Por tudo isso, OpenHeart conclui dizendo que os riscos potenciais de substituir gorduras saturadas por carboidratos seria o aumento do “mau” colesterol, obesidade, redução da tolerância à glicose, aumento da inflamação, aumento de marcadores trombogénicos, e maior risco de desenvolver diabetes tipo II.

Por outro lado, o risco potencial de substituir gorduras saturadas por polinsaturadas W6 seria o aumento de risco de câncer, ataque cardíaco e outras doenças cardiovasculares, redução do colesterol “bom” (HDL-C), e um aumento em linhas gerais de mortalidade.

O editorial conclui-se com o que chamam de “Dietary recommendations based on evidence from literature” (Recomendações dietéticas baseadas em evidências existentes na literatura científica) dentro das quais cabe destacar:

“Dietary guideline recommendations suggesting the replacement of saturated fat with carbohydrates/W6 poliinsaturadas fats do not reflect the current evidence in the literature” – As recomendações dietéticas que sugerem uma substituição de gorduras saturadas por carboidratos ou gorduras polinsaturadas W6 não refletem as evidências científicas atuais.

“A change in these recommendations is drastically needed as public health could be at risk” – É necessária uma mudança drástica em estas recomendações, devido a que a saúde pública pode estar em risco.

“The increase in the prevalence of diabetes and obesity in the USA occurred with an increase in the consumption of carbohydrate not saturated fat” – O aumento da diabetes e da obesidade nos EUA deveu-se a um aumento no consumo de carboidratos, e não de gorduras saturadas

“There is no conclusive proof that low-fat diet você any positive effects on health” – Não há nenhuma prova conclusiva de que uma dieta baixa em gorduras e tenha benefícios para a saúde

“The public fear that saturated fat raises cholesterol is completely unfounded as the low density lipoprotein particle size distribution is worsened when fat is replaced with carbohydrate” – A crença de que as gorduras saturadas aumentam os níveis de colesterol é totalmente improcedente o ser demonstrado que os níveis de colesterol LDL se agravar, ao ser substituído, estas gorduras por carboidratos.

“It would be naive to assume that any recommendations related to carbohydrate or fat intake would apply to processed foods, which undoubtedly should be avoided if possible” – É ingênuo pensar que qualquer recomendação sobre a ingestão de gorduras ou carboidratos estão relacionados com alimentos processados como esses devem ser evitados na medida do possível.

Chegado a este ponto eu considero várias perguntas. Por que a dia de hoje se continua a estudar na faculdade de medicina, assim como em outras disciplinas sanitárias este tipo de relação inexistente entre gorduras saturadas e saúde cardiovascular?Por que os médicos, sobretudo alguns cardiologistas, continuam a insistir em reduzir gorduras saturadas, diante de um quadro de potencial acidente cardiovascular?Por que os diferentes profissionais continuam a insistir em que devemos nos afastar de gorduras saturadas e a sua substituição por gorduras vegetais como a soja, ao supor essas mais “saudáveis”? Por que, em diferentes congressos médicos se continua a apoiar esta linha de atuação? Todas estas são perguntas que cada um responderá de forma diferente, mas há uma que parece ter resposta fácil e é… Por que a indústria de alimentos continua aproveitando-se do tão batido “0% de gordura” como principal argumento de venda de produtos supostamente mais saudáveis? Entendeis agora por que disse no início deste post que, se não fosse por estas ações, o leitor dificilmente ganho a este tipo de informação?

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