Electroestimulação, riscos e contra – indicações- O blog de fitness

Este fim-de-semana realizou-se um simpósio destinado à formação e educação continuada de formadores. Uma das palestras a cargo…

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Este fim-de-semana realizou-se um simpósio destinado à formação e educação continuada de formadores. Uma das palestras a cargo de Ricardo J. Ferreiro, decano da faculdade de ciências da saúde da Universidade Européia Miguel Cervantes, em Campinas, tratou especialmente sobre os benefícios, riscos e contra-indicações da electroestimulação muscular, a raiz da recente moda e o surgimento de centros monográficos de electroestimulação muscular integral, também conhecida como roupas de electroestimulação, biotraje ou electrofitness, ou whole body electromyostimulation (WB-EMS) em literatura científica.

Pessoalmente, eu não assisti a esse simpósio mas meu colega Eduardo Burdiel, treinador pessoal no club de campo Villa de Madrid, pediu-me para escrever sobre o que lá se estava transmitindo.

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que o uso de trajes de electroestimulação integral (de corpo inteiro), a tecnologia usada nestes centros monográficos de electrofitness, conta, no mínimo, com os mesmos riscos e contra-indicações que a electroestimulação local, uma tecnologia e de aplicação muito mais antiga e também a mais estudada. De acordo com o estudo de Kemmler (2012), todo o tipo de electroestimulação estaria severamente contra-indicado nos seguintes casos:

  • Epilepsia
  • Marcapasso cardíaco
  • Distúrbios e problemas de circulação
  • Hérnias de abdômen ou na virilha
  • Perturbações neurólogicas
  • Tendência a sagrar
  • Irritação de pele, queimaduras ou feridas
  • Doenças que afetam o metabolismo muscular (ex.: Diabetes)
  • Síndrome metabólica (Diabetes, hipertensão e obesidade)
  • Níveis elevados de ácido úrico
  • Alterações metabólicas e doenças do metabolismo
  • Patologias inflamatórias

Esta última é de vital importância uma vez que existem patologias inflamatórias comuns nas articulações, como por exemplo a artrite, onde a electroestimulação estaria severamente contra-indicado. Paradoxalmente, muitos destes centros e franquias usam o argumento de venda, de ser uma tecnologia mais saudável para as articulações devido a que o impacto é menor. Evidentemente, aqueles centros que permitem a utilização de eletroestimulação por clientes com problemas de caráter inflamatórias como a artrite, assim como o resto de contra-indicações mencionadas acima, não conhecem a literatura científica sobre o assunto e, no caso de conhecê-la, ele estaria agindo contra a saúde e a segurança dos clientes.

Seja como for, é de vital importância que o cliente atual e potencial de electroestimulação conheça esta informação, para não depender da boa-fé e a documentação destes novos centros de negócios e franquias.

Além disso, começam a documentar problemas graves, como Rabdomiólise para a saúde em indivíduos saudáveis após uma única sessão de electroestimulação integral ou electrofitness (J Clin Med Sport 2014;0:1-3). A Rabdomiólise é uma doença ou síndrome produzida por um excesso de dano muscular, normalmente provocado por fazer mais atividade física do que somos capazes de tolerar. Isso pode resultar em insuficiência renal aguda e até mesmo morte se não se identifica e resolve em quanto, aparecem os sintomas. É mais comum em indivíduos desentrenados ou sedentários, uma vez que conforme aumenta a nossa experiência, mas também da tolerância. Não obstante, foram observados casos de Rabdomiólise após uma única sessão de electroestimulação integral com esses trajes mesmo em futebolistas profissionais.

Segundo pesquisa recente, a eletroestimulação produz um maior dano muscular que o treino convencional com resistências, ainda quando a tensão muscular e o momento de força (torque) é menor, e está contra-indicado como única fonte de atividade física ou em indivíduos sedentários ou sem experiência prévia em treinamento de força.

Este mesmo documento se extrai que pouco mais de 25.000 UI/L de CPK (um marcador de lesão muscular) é suficiente para desencadear insuficiência renal aguda que requer tratamento imediato e a internamento hospitalar para prevenir uma possível morte, enquanto que no estudo mencionado anteriormente, se atingiram valores de até 240.000 UI/L, após uma única sessão de electroestimulação integral com esses trajes de electrofitness.

Em outro documento publicado há poucos dias no prestigiado International Journal of Cardiology (J. Finsterer, C. Stöllberger / Int J Cardiology 180 (2015) 100-102) detalha o processo pelo qual uma mulher sedentária com miopatia sem diagnosticar que se apresentava em forma de fraqueza e maior capacidade para causar dano muscular, após uma única sessão de electroestimulação integral com uma equipe MIHA-ANIMAL encontrou os três dias uma cor anormalmente escura na urina. Após dar conhecimento do pessoal de saúde este detalhe se encontraram níveis de 86.033 IU/L de CPK pelo que foi internada com diagnóstico de Rabdomiólise e insuficiência renal aguda. Depois de cinco dias internado quase sem poder andar e recebeu alta com a recomendação de se realizar controles pessoais, como cor de urina e a proibição de voltar a submeter-se a uma sessão de electroestimulação integral ou electrofitness. Demorou oito dias para recuperar níveis aceitáveis de CPK e a sua mobilidade normal, e onze desaparecer a dor muscular. Neste mesmo documento se responsabiliza diretamente a electroestimulação muscular ou electrofitness de Rabdomiólise.

O estudo mencionado anteriormente (J Clin Med Sport 2014;0:1-3) conclui estabelecendo uma série de riscos, controles e contra-indicações para o uso da eletroestimulação muscular integral ou electrofitness que passo a traduzir literalmente:

  • A electroestimulação integral ou electrofitness NÃO deve ser utilizado como única fonte de atividade física.
  • Também não deve ser utilizado por indivíduos sem experiência no treinamento de força ou atletas que gerem níveis de CPK superiores ao normal após a atividade física.
  • Ser um atleta experiente e treinado não impede de sofrer rabdomiólise e falha renal aguda após uma única sessão de electroestimulação integral ou electrofitness.
  • Recomenda-Se, como norma geral, e para evitar sérios problemas de saúde, como já vimos, controlar a cor da urina e dos níveis de CPK no sangue durante as 72 horas posteriores à realização de uma sessão de electroestimulação integral, electrofitness ou biotraje.
  • Não fazer caso da dor muscular como único indicador de lesão muscular uma vez que podem existir níveis dramaticamente elevados de CPK (marcador de lesão muscular e principal indicador de rabdomiólise) sem dor muscular associada.
  • No caso de se observar sintomas próprios de rabdomiólise, como urina mais escura do que o habitual, ir com urgência ao hospital e dar conhecimento do pessoal clínico a recente realização de uma sessão de electroestimulação integral, electrofitness, ou biotraje. É importante usar todos os nomes normalmente associados a esta prática, uma vez que o pessoal da saúde não tem por que saber todos os nomes que os diferentes centros ou franquias utilizados como estratégia de marketing.
  • Não consumir álcool, se se pratica qualquer tipo de electroestimulação, especialmente electroestimulação integral ou electrofitness.

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