Da áfrica do Sul, na Namíbia – Colorado on the road

Etapas: 08-29/12/2015 Descanso em Cape Town. 30/12/2015 Cape Town – Kleinmond (117 Km). 31/12/2015 Kleinmond – Gansbaai (85 Km). 01/01/2016 Gansbaai – Struis Bay (85…

Etapas:

08-29/12/2015 Descanso em Cape Town.

30/12/2015 Cape Town – Kleinmond (117 Km).

31/12/2015 Kleinmond – Gansbaai (85 Km).

01/01/2016 Gansbaai – Struis Bay (85 Km).

02/01/2016 Struis Bay – Caledon (122 Km).

03/01/2016 Caledon – Franschhoek (98 Km).

04/01/2016 Franschhoek -Morreesbury (103 Km).

05/01/2016 Morreesbury – Citrusdal (86 Km).

06/01/2016 Descanso em Citrusdal.

07/01/2016 Citrusdal – Trawal (104 Km).

08/01/2016 Trawal – Lutzville (63 Km).

09/01/2016 Lutzville – Bitterfontein (76 Km).

10/01/2016 Bitterfontein – Kharkams (92 Km).

12/01/2016 Kharkams – Springbok (96 Km).

12/01/2016 Springbok – Kleinsee (111 Km).

13/01/2016 Kleinsee – Port Nolloth (70 Km).

14/01/2016 Port Nolloth – Alexander Bay (89 Km).

15/01/2016 Alexander Bay – No meio do Deserto (64 Km).

16/01/2016 No meio do Deserto – Rosh Pinah (61 Km) (Entrada em Namíbia).

África do sul

Aterricé na Cidade do Cabo, depois de veintitantas horas trancado em aviões e aeroportos. Estava feito pó de toda a viagem, em um avião se dorme, mas nunca descansa. A bagagem estava em ordem, mas Bucéfalo havia sofrido um pouco de deterioração, por sorte o embalé e protegí a consciência antes de fazer check-in em São Paulo.

Por sorte, John estava esperando, um follower sul-africano fã de ciclismo, que me deu a sua hospitalidade durante os dias que fiz a pôr inscrevo para encarar o desafio de cruzar a África puro pedal.

John me levou de carro até a sua casa em um bairro tranquilo, a 30 quilômetros ao Sul do centro da Cidade do Cabo. Em sua propriedade tem uma antiga escola que, convertido em um hotel. Me deixou de ocupar um quarto com banheiro privativo e água quente, além disso, tinha cozinha, piscina, espaço e tempo para reorganizá-lo todo. É um privilégio que eu comecei a gostar de dormir 12 horas seguidas.

À noite cené com John e sua família, sua esposa Talitha e a sua filha Lulu. Ainda estava com a cabeça enfrascada pela viagem e o jet lag, mas, sobretudo, por causa de que já estava na África. Depois de mais de um ano falando Espanhol na américa Latina, voltava a usar meu inglês enferrujado.

A primeira semana passei tranquilamente. Comendo e dormindo bem, atualizando meu site e as redes sociais, organizando fotos, vídeos e diários para publicar, limpando toda a roupa e o equipamento, revendo todo o material e acabei fazendo uma longa lista de coisas que precisaria para atravessar o quarto e último continente da viagem.

Com o dinheiro arrecadado no Crowdfunding, consegui comprar: Lanterna, pilhas, uma calça, um par de camisas de manga longa para pedalar, meias, umas botas novas, roupa interior…levava mais de um ano sem comprar roupas. Eu arranjei uma loja de Holanda duas tampas Schwalbe Marathon Mondial 700x40C e um suporte traseiro Tubus. Eu fiz com creme solar, repelente de mosquitos, fita americana, luvas de ciclismo, dois caramañolas de alumínio, kit de reparação de furos e flanges. Bucéfalo passagem pela oficina para receber uma manutenção exaustiva. Nós mudamos os pinhões, a cadeia, alinhamos as duas jantes, pressionamos os raios, mudamos os freios e levei 10 raios, dois jogos de pastilhas de freios e duas câmaras de reposição. Em cada recado, em cada compra, e em cada passo da preparação sentia que estava começando uma nova jornada, e de fato assim era.

Os dias foram tranquilos e calmos, mas uma manhã, falando com um dos pintores que estava restaurando a fachada do edifício, vimos como uma serpente Boomslang tentava entrar na cozinha pela janela. Nós ajudamos de uma vara para dirigir a venenosa serpente para longe de casa, ainda não tinha dado nem uma pedalada e me deparei com a minha primeira aventura.

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(Tirando a serpente Boomslang)

Os pneus e o rack que eu arranjei demorava muito tempo para chegar. Os enviaram por correio normal, já que era a opção mais econômica, mas o atraso se deveu, especialmente, aos que o natal está à volta da esquina e o serviço postal é mais lento do que costuma ser.

Sem me dar conta chegou o dia 24 de Dezembro, e digo sem me dar conta, porque com dias ensolarados e 30ºC me é complicado localizar em tão assinaladas datas. Apesar de dar mais do que nunca falta da minha família e amigos, vivi meus terceiras natal da viagem, ao lado de John e sua família, gostando da nova experiência. Durante o jantar, tiveram o lindo detalhe de deixar-me um presente debaixo da árvore, uma t-shirt com um repelente de mosquitos para as noites africanas que me deparaban. Curiosamente, cada natal da viagem, passei em um continente diferente. Depois de vivê-las na Ásia, América e África, espero que as próximas sejam na Europa.

Diário África Do Sul.2

(Passando o natal em Cidade do Cabo com John e sua família)

A dois dias do fim de ano Talitha recebeu uma mensagem em seu telefone móvel, o frete já tinha chegado ao escritório da Cidade do Cabo. Enquanto John dirigia para o centro da cidade, só conseguia pensar no que me muitos nesta nova aventura, que surpresas me tinha preparadas e obstáculos que teria que superar. Depois de tanto tempo viajando e de enfrentar tantas complicações, quem me diria a mim, que estava prestes a empreender a viagem de volta para casa, atravessando a África de bicicleta.

Nada mais voltar para a casa de John instalar os novos pneus, e escrevi sobre eles os 64 nomes dos Crowdfunders que tinham me dado a oportunidade de continuar lutando. Link o novo porta-bagagens e com o velho na mão pude ver o que realmente destruído que estava. Ganhei de presente ao comprar os alforjes antes de começar a viagem, e lembro-me de como o vendedor me disse: “Esse bagageira só te serve para sair do passo”, e justamente isso mesmo fez, sair do passo durante 48.000 quilômetros e muitas quedas.

John fez um churrasco de despedida e quase não encontrava as palavras para agradecer tudo o que fizeram por mim essas 3 semanas. Com a saída do sol começava a minha aventura pela África e dei a primeira pedalada. Coloquei rumo em direção ao Sudeste para visitar o ponto mais ao Sul do continente, o Cabo das Agulhas, que fica a 300 quilômetros da Cidade do Cabo.

Diário África Do Sul.3

(Começando a viagem por África)

O calor era intenso e o sol batia muito duro. Entre o meu chapéu novo que foi um presente de um venezuelano que eu conheci na minha última noite em São Paulo, e, juntos, demos-lhe o nome de Caipiriño.

Não fui muito prudente ao pedalar com tanta força depois de uma pausa tão longa, mas o corpo me pedia. Ao pôr-do-sol iniciei a minha primeira pesquisa do acampamento na África, perguntei em um par de pousadas ter se eu pudesse acampar no jardim, mas não tive essa sorte. Acabei pedalando de 15 quilômetros de noite para chegar a um parque de campismo, o que também não me permitiram entrar, porque os escritórios estavam fechadas, as ordens do chefe, então decidi acampar na entrada e ponto. Pela manhã, falei com o dono para ver se podia usar os banheiros, mas não me deixou porque não tinha pago.

A segunda jornada, foi a vez do último dia do ano. Minha intenção era chegar até o Cabo das Agulhas, mas o longo período de tempo sem pedalar unido à dura marcha que eu usei no dia anterior gerou uma aguda dor no joelho esquerdo, minha perna dominante. Havia forçado muito os tendões em meus primeiros quilômetros na África.

Bastante dolorida e com o vento contra consegui abranger 85 quilômetros. Cheguei a um parque de campismo que estava completamente cheia, mas que me recebeu com uma energia muito acolhedora. A dona da casa convidou-me a acampar sem custo algum, coloquei meu lar portátil ao lado de uma família que me convidou para jantar, oferecemos todos juntos e ensinei como recebemos o ano em Portugal: Comer as doze uvas para cada badalada do relógio da Puerta del Sol, isso se, imitando as badaladas com uma colher e uma garrafa vazia. Já posso estar em qualquer parte do mundo que eu no dia 31 de Dezembro eu tomo meus doze uvas, ou se se!

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(Preparado para receber o ano com as uvas, e para brindar um vinho barato, embora rico)

O primeiro dia do ano, alcançou Struis Bay depois de ter manuseado a minha primeira pista de terra, atravessando o Parque Nacional das Agulhas. O joelho me dá menos problemas nesta jornada e passo a noite acampado junto à praia. Pela manhã, fui tomar o pequeno almoço ao ponto mais ao Sul do continente, onde se unem os Oceanos Atlântico e Índico. É neste lugar onde ubiqué minha km zero na África, decidiu lutar por conectá-lo com Alexandria à base de pedaladas.

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(No ponto mais ao sul do continente africano)

Com novo rumo o terreno mudou. Indo para o norte, as colinas não deixaram que meu joelho britânica, parecia uma brincadeira de mau gosto de começar com esta complicação. Os dias transcorrem com um calor esmagador, o termômetro se concentrava durante várias horas em 45ºC e tinha momentos que atingia os 50 ° C. O sol ultrapassa o horizonte às 05:30 da manhã, e às 06:00 am o interior da loja é um forno. Meu corpo precisa nessas condições um litro de água por hora. Eu começo a diminuir pouco a pouco a água que engenheiro para curtir o corpo e prepará-lo para a Namíbia. Finalmente diminuiu a quantidade pela metade.

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(O sol não perdoa na África)

Achigã meu primeiro porto de montanha e sinto o joelho totalmente recuperada. Me convidam para acampar e para jantar em um B&B. Parece que a experiência da minha primeira noite no caminho, foi simplesmente que me cruzei com os três únicos antipáticas da África do sul. Estava voltando para pegar o ritmo e a sentir a energia a que estou acostumado. Mas eu cometi um sério erro antes de sair da Cidade do Cabo e o ia pagar caro.

Tentando esticar o dinheiro do Crowdfunding, eu aproveitei a oportunidade para não alterar os pedais com a esperança de que aguantaran um par de meses mais, apesar de que eu sabia que estavam muito danificados. Encerrando uma etapa caiu o pedal direito depois de moer a rosca do prato. O que eu poderia ter saído barato agora me sairia caro.

Depois de empurrar 15 quilômetros, cheguei a um posto de polícia onde me apañaron um pedal com um parafuso longo e um par de porcas. Pedalei 23 quilômetros até a próxima cidade, onde troquei os pedais e o prato. Com a última visita de Bucéfalo ao workshop e uns pedais que já não chirriaban, seguimos cruzando longas faixas de terra.

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(Improvisando um pedal com um parafuso e duas porcas)

Uma noite acabei acampando junto a um povo e coletando água de uma tubulação quebrada. Antes de dormir, fui abordado por um senhor que de alguma forma me viu com a última luz do entardecer. Foi bastante pesado comigo de sua vida, contou-me que esteve na prisão por drogas e pediu-me que lhe invitara uma cerveja, depois me pediu diretamente dinheiro e eu disse a todos que não. Antes de ir lançou-me um aviso, uma ameaça: “cuidado, que esta noite se podem invadir”. Eu tenho muita paciência, mas quando esta é eu só deixo de ser educado, assim que lhe fiz saber meu aviso-ameaça: “Só tu sabe que eu estou aqui dormindo, se alguma coisa me passa, já a por que eu tenho que ir”. Ninguém mais veio me perturbar durante a noite, mas não dormi nada bem. Pela manhã, lembrei-me de como intuí dias antes que o pedal me daria problemas e decidi não fazer nada, da mesma forma que intuí um grave perigo ao não mover o meu acampamento depois de tal aviso-ameaça e não fiz nada. Sempre digo que há que fazer caso aos seus instintos, e eu mesmo me saltei da norma em duas ocasiões, mas já não mais. Parece que o longo sono para atravessar o Atlântico tinha me feito esquecer certas lições do curso, e pouco a pouco as estava aprendendo de novo.

Depois de vários dias desconectado consegui wifi a noite que dormi em Springbok, e li uma mensagem de Javier Bicicleting, com quem mantinha contato há meses. Estávamos coordenando um encontro e tudo aponta para o fato de que era a mensagem definitivo. Ele estava descendo em direção ao Sul da fronteira com a Namíbia e ia fazer a noite, Kleinsee, um povo que só me restava a 110 quilômetros na direção Oeste.

A bom ritmo pedalei os primeiros 45 km por asfalto. Me cruzei com os primeiros babuínos da viagem, um macho enorme e duas fêmeas, correndo pelo deserto. Os restantes quilómetros foram por uma pista de terra bastante desastrosa, atravessando colinas, bancos de areia e com o vento contra. Não tinha muita água nem comida, mas estava óbvio que o esforço merece a pena.

Caiu o sol e me rodeou a escuridão. Cheguei ao povo mineiro sem saber onde encontraria meu companheiro, assim que os últimos quilômetros gritava a cada minuto: “¡¡¡Españaaaa!!!”, esperando alguma resposta na silenciosa planície. Cruzei uma solitária rua às 22:00 pm e ao longe vi uma pequena luz mover-se à medida que se aproximava…era o meu reunidas, que saiu ao meu encontro!! Bicicleting tinha chegado algumas horas antes e a polícia lhe havia dado as chaves de uma casa desabitada, para que nos servisse de refúgio.

Depois de tantos meses falando através do computador, o abraço do encontro foi mais do que merecido. O evento se poderia classificar como único no cicloviaje: Ambos somos Espanhóis e de Madrid, ambos levamos uma bicicleta suma soma poupanças Ravel e estamos dando a volta ao mundo, somamos entre os dois mais de 100.000 quilômetros, e para rematar a faena ambos nascemos na década de ’80 e nos chamamos de Javier. Coincidências que nos fez sentir que éramos amigos de toda a vida.

Javier Bicicleting estava terminando sua viagem pela África e o meu tinha acabado de começar. Enquanto cenábamos compartilhamos muitas experiências e me deu dicas valiosas. Me contou como foi a sua viagem, e a verdade é que senti bastante inveja do bem montado que o tinha. É fotógrafo profissional e jornalista, vende artigos para revistas, recebe material de várias empresas e economicamente se mantém. Basicamente vive viajando porque soube como fazê-lo, enquanto eu sobrevivo viajando. Ainda não consegui decifrar, porque, apesar de todo o meu esforço nunca consegui trabalhar com uma revista. Eu dei muitas voltas à cabeça antes de dormirme.

Pela manhã, tentei abrir a porta, e quebrei a chave, assim que pegamos as bicicletas e todas as bolsas pela janela, foi a nossa última anedota juntos. Antes de despedir-nós tiramos a foto da vitória que ficará imortalizado para a eternidade.

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(Javier Bicicleting & Colorado On The Road)

As seguintes duas noites dormi em Port Nolloth e Alexander Bay, a apenas 12 quilômetros da fronteira com a Namíbia. Cheguei ao posto fronteiriço de Orajemund bem cedo, cancelé o visto de África do sul, cruzei a ponte que atravessa o Rio Orange e estampé o visto da Namíbia em meu passaporte. Mas a estrada asfaltada que me levaria até Rosh Pinah é propriedade de uma empresa de mineração de diamantes, e me proibiram pedalar por ela. Muitos caminhões diziam-me, não é seguro para ti. Então, tive que voltar para a África do sul para subir o rio Orange 80 quilômetros por algumas pistas de terra é prejudicial, até chegar ao próximo posto de fronteira.

Sob um ataque de testarudez recusei a voltar a Alexander Bay por provisões, sabendo que teria que fazer a noite no deserto. No início fiquei mais tempo empurrando a Bucéfalo que pelo continente, até que caiu a tarde e, pouco a pouco, o calor relaxou à medida que a faixa de terra melhorava.

Passei a noite no alto de um planalto envolvido pelo silêncio e sob o céu estrelado. Cené o último que me restava de comida e racionalicé água para a batalha do dia seguinte.

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(Pôr-do-sol no deserto)

Com o sol de novo no horizonte iniciei a marcha em jejum, antes que o calor começou a bater. Fui muito lento enquanto empurrava os bancos de areia e rocha, em alguns trechos o terreno podia pedalar. Por sorte passou um carro de polícia, que me deu dois litro de água para os 30 quilômetros que tinha até a fronteira. Depois ofereceram-me remolcarme e grato lhes disse que não, me sobraram vontade de lutar.

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(Drift na areia)

A chegada à fronteira foi mais amena pedalando por uma pista de terra firme, e rodando a uma velocidade boa. Subi uma pequena embarcação que cruzei o Rio Orange e por fim pisé Namíbia. Mas ainda tinha mais de 31 quilômetros até o próximo povoado, Rosh Pinah. Apesar de estar moído, fiz esse último trecho com tranquilidade e firmeza. Finalmente cheguei ao primeiro posto de gasolina onde eu bebi bastante água enquanto caía a noite.

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(Atravessando o Rio Orange)

Havia uma longa fila para pagar na loja, mas você me fez suportável. Uma vez consegui junto a Bucéfalo sentei-me no chão e eu preparei alguns sanduíches, não tinha comido absolutamente nada em todo o dia e havia superado uma etapa extremamente dura e longa, mas comi sem ânsia. Estava feliz, sorria enquanto me sacudia o pó da roupa…havia voltado. A longa parada em Santos e Cidade do Cabo tinham me deixado adormecido, mas, por fim, havia despertado a inesgotável força que nunca me deixa me prestarem, que nunca me permite parar e que passe o que passe sempre quer que avanço…voltara a ser eu!

“Se você tentar ser melhor que os outros…no final sempre vai encontrar alguém que te supere.

Se lutas por ser melhor do que você foi ontem…no final sempre se encontrará superándote a ti mesmo.”

Diário África Do Sul.12

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