Crônica da fase 2, falso liso

Amanhece meio nublado, o que não é pouco. Bom presságio, sem dúvida, mesmo que dure apenas alguns minutos. É hora de seguir repondo forças, missão que começamos a…

Afonso e Serafim, a ponto de tomar a saída para o segundo dia.

Amanhece meio nublado, o que não é pouco. Bom presságio, sem dúvida, mesmo que dure apenas alguns minutos. É hora de seguir repondo forças, missão que iniciamos a tarde anterior nada mais chegar, comendo arroz branco e massas, até a saciedade, combinando-o com um shake de proteínas que serve para se recuperar de esforços prolongados e que, além de cheirar a Nesquik sabe algo parecido com o Nesquik. Para lanchar, de ter tido, eu teria molhado biscoitos, mas tive que me contentar com o shake e um pedaço de pão que roubei do jantar.

Mesmo que não tenha fome, há que comer o pequeno almoço. A estas horas da madrugada, tem quem tem problemas para mastigar e engolir. Eu, pessoalmente, piso poder comer a qualquer hora. Depois, há que passar o controle de assinaturas, fechar o bolsón e levá-lo para o caminhão, que o transportará até o próximo acampamento, pegar os 3 litros de água obrigatórios de acordo com o regulamento (ninguém ninguém ninguém os leva, e nunca nunca nunca controla nenhum juiz de carreira). Em seguida, a esticar os músculos durante 10 segundos (perdão, exagero, 5 segundos) e para o arco de saída, onde se amontoam 300 pico e ciclistas.

Já sobre o tandem, há que fazer uma avaliação da situação: nós temos bielas novas e pedais dianteiros novos, mas estes continuam a ser montados ao contrário (não encontrámos pedais de reposição Look ou Cranck Brothers). Ou seja, para calar você tem que plantar primeiro o calcanhar e depois a parte da frente do pé. Afonso mantém que é assaz difícil. A Serafim não lhe custa tanto, e isso que ele tem um pedal do direito e o outro do avesso. Nota-Se que o seu é a coordenação, por algo que foi finalista em Olha quem dança.

Apesar das dificuldades, mantemos o otimismo: “Isso é infinitamente melhor do que pedalar com o pé apoiado sobre o eixo”.

Saímos atrasados, mas a recuperação é espetacular.

Também foi melhorada a altura da bicicleta. Torcer os amortecedores tem sido uma grande ideia. Ernesto nos ajudou ontem à noite a avaliar quanta pressão podíamos dar-lhes. Agora estão ao máximo recomendável de acordo com o fabricante, mas apesar disso, quando Serafim e Afonso são montados, se afrouxam o amortecedor traseiro e o colocam em posição “propedal”, por exemplo, o eixo de trás e as bielas se aproximam demasiado para o chão, para o risco de colidir com as enormes pedras que abundam por estes caminhos. Ainda é pior, se está em posição de descida, pois ainda baixa mais. Por tudo isso, tomamos a dura decisão de levar o amortecedor traseiro sempre bloqueado. E digo dura , sobretudo, pelo conforto que perdem as posaderas de minhas duas companheiro de equipe, que sofrerão o chocalho e a erosão o resto da corrida.

E deu à luz a avó…
Não sabemos muito bem se por culpa do incessante chocalho, dos nervos ou a laranja descascada e cortada que tomaram Afonso e Serafim de sobremesa na noite de ontem, a esse ranger as tripas desde a primeira hora da manhã.

Mares de pedras de aparência interminável.

Tudo parece que se deva a alguma bactéria infiltrada no aparelho digestivo, daquelas que provocam deslizamentos de terra, desvio, estampidas e inundações incontroláveis. Mas Serafim é forte e não se rende. O ano passado também teve que lidar com o jejum, e que não entrava nada e foi-lhe escapando tudo. É estranho, mas o plantel já houve várias desistências por diarreia. Há pessoas que diante da primeira dificuldade sobe ao carro vassoura. Serafim nem se coloca. Afonso diz que ele também comeu laranja, e que de momento está bem, mas é que a cada um lhe caem os alimentos de forma diferente.

E assim vamos avançando. Com um comprimido de Fortasec a mão, se a coisa vai de mãe e muitos envelopes de Sueroral Hiposódico para repor líquidos.

Abrindo impressão
Estávamos a um bom ritmo por uma superpista cerca de 20 km É um terreno favorável para o tandem, que, por fim, tire proveito da potência e da inércia que dão os 185 kg que soma total sobre as duas rodas. A bom ritmo vamos passando-se a alguns participantes que dão bandazos pela sarjeta. Outros vão mais retos. É fácil deduzir quem são os que ontem foram passados de ritmo, e hoje andam tocados.

Superando uma colina para encontrar o controle de passo, pedalando de pé, algo impossível no ano passado, com o tandem de propulsão independente.

Nós temos dosificado as forças. Como diria Miguel Induráin, vamos “regulando”. Anna Vilà Roig (dorsal 270) coloca a roda de Afonso e Serafim. É inteligente, sabe aproveitar as circunstâncias, mas pede permissão e agradecer por aproveitar a super estela do tandem, já que o vento hoje nos dá nos morros desde há algum tempo.

Afonso com vento de frente está em seu molho. O resto nos adaptamos ao calor, pouco a pouco. Com tanta pressa, ao final, o tandem mesmo me ultrapassa e está a ponto de ignorar o abastecimento 2. “À direita!!!!!”, grito. Travão, manobra e a beber*.

*Para quem não sabe, a Titan Desert nos postos de refresco só há água (à temperatura ambiente) e Powerade (apenas um abastecimento por estágio), em frigoríficos. Em teoria ninguém pode levar as garrafas. O regulamento prevê sanções a quem o faça, mas os resumos de TV pode-se ver que há alguns participantes que não perdem tempo enchendo garrafas, ou seus camelbak. Levam-Se a garrafa, vai bebendo durante um par de quilômetros e depois a joga no chão. Os que vamos atrás podemos dar fé disso.

A paisagem varia mais do que se possa pensar. Pela manhã, fomos por uma planície negra salpicada de acácias e de ambos os lados da pista, a vários quilômetros, adivinaban cordões de dunas. À tarde, em contrapartida, temos internado em uma região semimontañosa de suaves contornos marcados por curvados dobras, colorido. Enquanto pisa, me pergunto se o tempo ou forças para saborear estas paisagens únicas, para describírselos a Serafim. Por precaução, vou fazendo fotos.

Decisões arbitrárias
Já algo artefactos de uso semelhante e com vontade de otear o acampamento no horizonte, iniciamos a longa ascensão da segunda parte da fase. É estendido, com que o tandem não sofrem mais da conta, mas o vento continua varrendo bochechas e as bochechas.

Os últimos quilômetros que nos fazem subir literalmente. Porque sobem e porque o vento ganhou força e o caminho é um caótico pedregal daqueles que convidam a abandonar a bicicleta e comprar um dromedário.

Com o navegador GPS e o rutómetro, para esclarecer as possíveis dúvidas que oferece o itinerário, totalmente flechado (ainda mais do que em edições anteriores).

Depois de outros 100 km em cerca de 7 horas (minutos cima, minuto para baixo), chegamos a meta, de novo juntos, de mãos dadas, com a esperança de que o estômago de Serafim deixe de dar a lata. É hora de comer. Arroz branco. “O que sosez!”. É o que há. As bactérias não respeitam ninguém.

À tarde, poderemos descansar, pela primeira vez. O tandem hoje ele tem sido alvo. Só há que limpar e lubrificar as correntes.

Após o briefing nos comunicam a salomónica decisão dos comissários de corrida sobre o que aconteceu durante o estágio: 15 minutos de penalização para os que hoje tomaram a estrada, algo que é proibido pelo regulamento, e economizar o via crucis da última área de estágio, muito pedregosa e arenosa, onde era fácil perder 1 hora, tendo em conta a velocidade média do restante da jornada.

“Quão pouco! O chegou a conhecer e também tomamos a estrada… Por 15 minutos…”, musitamos. É o que há. E continuamos engolindo arroz branco.

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