Crônica da fase 1, mares de areia

Primeiro dia. Primeira hora. Um helicóptero nos sobrevoa nivelada e concêntrico, como um grifo. Alguns saúdam a câmara de televisão que paira…

Duna acima duna abaixo, cresteando sempre que possível, buscando o controle no meio do areal.

Primeiro dia. Primeira hora. Um helicóptero nos sobrevoa nivelada e concêntrico, como um grifo. Alguns saúdam a câmara de televisão que espia pela janela do passageiro. Será o único momento do dia em que nos passe sobre as cabeças dos que vão para a parte de trás da comitiva. Estamos de sorte. A notícia vai em frente. Nós o nosso, a desfrutar do deserto.

A fase começa com nervos, claro. E com areia. É a primeira vez que Afonso se interna em um erg. Que pena viver a experiência assim, rodeado de gente, com pressa, caminho de um ponto de controle em metade das pequenas dunas. Mas isso é uma corrida, ao menos para alguns, e há que manter as aparências e cerrar os dentes para não ceder metros entre a roda dianteira e a traseira do que lhe antecede.

Nos esperam cerca de 100 km de caminhos pedregosos e arenosos, com cerca de 460 metros de desnível positivo acumulado. Parecia uma fase de transição, um mero trâmite, algo que se pudesse cobrir quase sem pestanejar. Mas não. As dunas e passamos quase 50 minutos. E então descobrimos que os caminhos (totalmente flechados) não eram estradas de terra prensada e nem eram tão lisos como um desejaria. A Titan Desert é assim. Na tv, quando você vê os Heras & Co. rolando a 35 km/h, por caminhos empoeirados, se deixar enganar pelas aparências. Esses caras exprofesionales literalmente voam baixo. Parece que o caminho não tem nem pedras nem aberturas, mas, na realidade, há um milhão de pedrolos por quilômetro quadrado. Às vezes, ao vê-lo na tv parece que seja sempre planície ou baixada, ou que vão em uma dessas bicicletas elétricas em que apenas há que dar 3 ou 4 pedaladas e depois ligue o motor elétrico e sais disparado.

Perfil da primeira etapa, quase liso, mas não.

O tandem só voa nas descidas. Na planície, pede o prato grande, mas na subida é pregado ao chão como um jumento em greve. Eu tento exercer de cenoura, alentándole a avançar um pouco mais, mas é de uma teimosia imbatível.

Além das dunas começa a rolar rápido do tandem. Parece que d. Afonso e Serafim estão ansiosos por recuperar o tempo empregado em arenal e subir um pouco a média. Na planície devo exprimirme para abrir buraco em o vento lateral durante um par de horas. Em seguida, começa a dar para trás. Eu me alegro. Afonso se queixa. “Prefiro o vento de frente, porque refrigera”, alega. Eu quase caio da bicicleta ao ouvi-lo. Mas a verdade é que há um calor…

Afonso e Serafim, acoplados em tandem.

Os planos se sucedem, mas são interrompidos por oueds pedregosos e arenales surpresa que tiram do cardo, a quem não tenha pedaleado nunca para o deserto. “Assim, não há maneira de avançar”, se desespera Afonso, que tem os olhos cheios de uma mistura de suor, protetor solar e lágrimas coceira.

De vez em quando pergunto que tal vai o tandem. De vez em quando me respondem com sinceridade, mas quase sempre respondem: “Bem… Vai bem, exceto quando ficamos cravados na areia e as enseadas não saem…”. Já caiu várias vezes. Eu tento marcarles passos ideais quando o caminho está impraticável, mas nem sempre acerto. Quase sempre se levantam com paciência, se encorajam um ao outro e voltam a andar. Outras vezes explode a raiva que tinha dentro. Sorte que são boas pessoas e, acima de tudo, bons amigos.

O ponto de inflexão tem lugar pouco depois, quando estávamos em paralelo. De repente, Afonso pára gritando agitadísimo: “Já está! Eu perdi o pedal!”. É o que temíamos há horas. Ao enfiar os pedais do contrário, existe o risco de se aflojen durante o passeio e, eventualmente, a saliéndose.

Paisagens de marte, cenários de fatos surreais.

Afonso trava de golpe, é baixa a bicicleta amaldiçoando e sai andando de costas para nós, canalizar a sua raiva e impotência, agitando os braços, inclinar-se, olhando para o chão e fazendo barulho como um espantalho.

Eu miro fôlego e meu primeiro pensamento é: “Onde você vai? Você volta para casa?”.Só entendo o que acontece quando pára, vira-se e solta: “ah, Pois não o encontro!”. E Serafim lhe responde: “Como não vai encontrar! Se o pedal é algo enorme e você caiu faz nada…”.

Não posso conter o riso. Afonso vira-se e me escruta decomposto em busca de uma resposta para o meu ataque de riso. Tenho certeza que ele não faz nem puñetera graça, mas é que o pedal em si o leva preso ao pé, com eixo e tudo. Ele não nota porque o terreno para o que anda é tão corajoso que se afunda sob os seus passos. No final, rimos todos.

Reparada a avaria e recuperados dos nervos, reemprendemos a marcha.

Eixo do pedal nu e escorregadio, a 30 km de chegada o primeiro dia. Que queda de energia.

O estágio é um processo, sim, mas muitas vezes trâmite. Não passa nem um pouco de ar. É a calmaria total de meio-dia. Nos restam apenas 35 quilômetros. O caminho parece melhorar, mas restam poucos metros de ascensão ao ponto mais alto da fase. Em seguida, tudo será baixada, que se nos afigura rápida, rápida. Já sonhamos com chegar ao acampamento, comer algo, beber algo fresquito, estar na sombra, com as pernas no alto…

Então ocorre um novo incidente. “O pedal outra vez”, grita Afonso. Desta vez, você não baixa de bicicleta para a procurá-lo. Está pregado ao sapato, mas desta vez é diferente. Não se soltou da rosca. Se tem festa a união entre o pedal e o seu eixo. Tentamos enfiar, mas não é possível. “Joer que forte pedaleáis, meninos, não tinha visto quebrar um pedal novo em tão poucos quilômetros…”.

Não me ocorre nada melhor, então, terá que pedir a Afonso que pedalei apoiar o pé sobre o eixo nu, assim como fazem muitas crianças que andam de bicicleta por entre os povos do Atlas.

Apesar das dificuldades, avançamos com os dedos cruzados para que não quebre nada mais e para que ninguém se machucar. Você tem que chegar à meta, como você. Conseguimos às 8 horas da partida, exatamente às 3 horas da tarde. Os mais rápidos nos trouxeram várias horas, mas não perdemos o senso de humor e acreditamos que “temos chegado a hora de os senhores, quando a mesa já está servido”.

Raul, com a bata na sala de cirurgia, e Peio, de pé, como anestesista do tandem.

O ruim vai ser tarde, pois o tandem precisa passar pela sala de cirurgia e Ernesto não é de hoje de guarda. Terá que ir ao hospital de pagamento. Por sorte, Raúl Hernández, de Doctore Bike, se compadece de nós e nos monta um pedaleiro, eixo pedaleiro e pedais novos em um instante. Peio Ruíz Cabestany também contribui com sua parte de areia: enquanto Raul aperta parafusos com as mãos cheias de graxa, o de San Sebastián acaricia o guiador do tandem, como o enfermeiro que acompanha o ferido após a batalha.

É claro que somos uma equipe. Cada dia mais numeroso.

Amanhã mais…

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