Crônica da etapa 5, a custa final

Não choramos. Somos felizes. Temos completado a Titan Desert 2010 em tandem. O mais difícil da história. A que tem mais a montanha. O que…

Descida a um novo oued por uma paisagem avermelhada de rocha e arenito.

Não choramos. Somos felizes.Temos completado a Titan Desert 2010 em tandem.O mais difícil da história. A que tem mais a montanha. A que nível mais elevado de participantes foi alcançado até à data. Também a que menos abandonos foi reivindicado. Esses dias, tivemos o carro vassoura perto muitas vezes. Quando encarábamos o porto do terceiro dia. Quando se volatilizó o prato grande. Quando só entrava o pinhão grande. Quando já nem aquele entrava. Mas quando superar os 15 km/h na descida, porque só podíamos colocar o prato pequeno…

Últimas subidas da Titan Desert 2010.

O quinto dia amanhece nublado. Nossas mentes também o estão. Depois de acordar cedo (já algo habitual para os nossos organismos), descobrimos que a saída foi adiada uma hora, porque a fase é significativamente mais curto do que os outros dias. Os que continuam na carreira são consideradas como finishers. São apenas 55 km com 450 metros de desnível positivo a ganhar. Um trâmite, sem dificuldade, em comparação com o dos últimos dias.

Serafim está mais animado do que ontem à noite, mas continua visivelmente irritado com a decisão da organização e, assim, transmite-o ao jornalista de Marca Josu no Japão: “Estou decepcionado com a decisão da organização”.

Link para a notícia e entrevista: http://php.marca.com/2010/05/11/ciclismo/1273596450.html

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Após a entrevista, Josu escreve um artigo, e o batizou com um novo título: O saltador de obstáculos. Exatamente assim que nos sentimos nos dias de hoje. Mil e um obstáculos a cada dia. Mil tropeços e quedas. Mil traçadas. Mil crise superadas. Mil alegrias.

Com entusiasmo e emoção, partimos do último acampamento em direcção a Ouarzazate. O terreno é um sobe e desce constante que vai por caminhos em muito bom estado, se comparado aos outros dias. Somos otimistas, mas a fase, haverá que ganársela metro a metro.

Mais do que para orientar (há setas por todas as partes), coloco em prática o GPS para calcular exatamente os metros de desnível acumulado e ir cantándoles a figura de d. Afonso e Serafim, para que todos os dados são relevantes. Os 450 metros de ascensão acumulada, previstos para hoje podem parecer uma minucia, mas há que ter em conta o estado do tandem, que a estas alturas emite mais lamentos que um condenado às galeras. Serafim e Afonso também dão sinais de fadiga. De entrada saímos muito bem, marcando um ritmo elevado, mas logo começam os desencontros com a transmissão e Afonso se vê obrigado a fazer acrobacias com o desviador. O prato médio tem mais curvas do que uma pamela daquelas que levam os aristocratas nas revistas do coração e cada vez dá mais problemas para rodar sem fazer saltar a corda, que a essas alturas já que quase poderia servir para bater um recorde do Guinness de salto, a curvatura (se a corrida dura mais de um dia, teria que tirar alguns elos, pois cada vez vejo mais perto do solo).

Apoio incondicional nos postos de refresco para o tandem.

A paisagem muda de cor quando passamos um grande rio e se eleva por uma montanha de terra argilosa, muito vermelho, que esconde estratos verdes, amarelos, cinzentos… O tandem avança renqueante a poucos metros do carro vassoura. Em alguns repechos tentativa de ajudá-los com leves empurrões, puxando a alça da mochila de Serafim, mas é mais fácil desestabilizarles que fornecer-lhes um pouco de inércia extra.

A meio caminho, em uma das subidas mais duras, deparamo-nos com um grande grupo de carros Nissan estacionados às margens da estrada. Acho que são os VIP da Nissan, patrocinador da prova. Nos puxam fotos e nos lançam ânimos de ambos os lados da pista.

Ao coroar, espera-nos um longo planalto, que tende a descer. O vento dá de cara com o que o impede de deixar-se levar, e agora só nos resta um cartucho: prato pequeno e pinhão pequeno. É uma combinação pouco aconselhável porque a cadeia trabalha muito cruzada, mas é a única que nos permite ir a mais de 12 km/h em um terreno claramente favorável em que ir no prato médio e grande poderíamos duplicar a velocidade média.

Não é de admirar que, desde os carros vassoura (até 4 veículos nos escoltaron no planalto) nos cheguem ondas carregadas de amigáveis maldições. Eles têm paciência… Mas não menos que Serafim e Afonso, que já têm o rabo desfeito de tanto chocalho e cada minuto se lhes ela eterniza meio século.

Com os nossos amigos dos pontos de controle e postos de refresco, já na meta final.

Ao chegar à meta, depois de receber o fóssil de finishers por parte de Manu Chop, responsável pelos roteiros da Titan Desert, os membros da equipe de controles, postos de refresco e carro vassoura nos pedem uma foto de família. Eles nos têm incentivado todos os dias de forma incondicional. Entre foto e foto (tinha meia dúzia de câmeras), no entanto, um deles nos inquiere: “Agora íeis pisando em ovos!”.O pobre não se deu conta de que não poderíamos ir mais rápido com aquele desenvolvimento e o vento contra. Ao ensinar-lhe o tandem fica de pedra e sem palavras.

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