Crônica da etapa 4, sonhos desfeitos

O despertador é um pedaço desnecessário quando você não está preso olho em toda a noite. Temos tratado de descansar como crisálidas, devendo dentro do saco…

O despertador é um pedaço desnecessário quando você não está preso olho em toda a noite. Temos tratado de descansar como crisálidas, devendo dentro do saco de dormir e sob uma grossa e pesada manta que ontem à noite nos facilitou a organização a todos e a cada um dos participantes. A fila a alguns lhes esqueceu por um momento o do “espírito titan” e o de pedir sessão. Por sorte, este comportamento egoísta e egotodo não deixa de ser pontual, residual e, por isso, vivido naquele momento, também difícil de erradicar a cem por cento.

Vento de frente limando as nossas forças.

Já em pé, Afonso e Serafim aparentando estar meio inteiros (poderíamos dizer meio partidos, mas nós somos otimistas patológicos).

Eu alucino. Após a etapa de ontem ainda lhes faltam forças até para brincar. Esta noite, como tivemos um roncador desumano ao nosso lado, e Afonso se pôs a modo de tampões auditivos duas gomas de energia Ride Shot de limão. “É a única coisa que tinha à mão. Agora devo ter as orelhas perfumadas”, solta sorrindo caminho do banheiro.

Outro perfil em forma de pente.

Hoje nos esperam 135 km com 1.400 metros de desnível positivo. O tempo limite é de 12 horas. São cerca das 8 da manhã e sabemos que daqui a nada já estaremos enfrentando uma dura subida que termina com um puertazo de 4 km que ganha nada menos do que 400 metros da tração.

Pouco depois da saída percebemos que as forças não são como ontem. A super etapa de montanha acima está acontecendo fatura e o que ontem Afonso e Serafim encaraban com prato médio hoje logo lhes reclama o pequeno. O suave murete inicial é um primeiro aviso, mas a coisa não parece tão mal no início, pois a pista tende a llanear e descer até o km 25, onde muda de sentido e teremos que aceitar o sofrimento como companheiro de viagem. Por isso, agora vamos rolando fácil, em grande prato, por uma imensa planície de pedras dividida pela pista. Vamos quase 30 km/h. Que felicidade.

Até que o sonho se desvanece.

Tudo acontece ao atravessar um rio seco de cerca de 30 metros de largura, em cujo leito descansam grandes pedregulhos, do tamanho de melancias. Eu vou na frente, otimista. Meus meninos estão se saindo. O porto vai ser muito difícil, mas vamos conseguir. Estou convencido de que vão conseguir. Só há que manter o tandem e em forma regular as energias.

E então acontece o inimaginável. Ao sair do rio, em uma dura rampa, a corrente do tandem trava e faz com que Serafim e Afonso ficar sem tração, perder o equilíbrio e cair para um lado. Levantam-Se sem problema quanto conseguem libertar os pés dos pedais (não saltam como deveriam, pois são montados ao contrário, como explicamos nas primeiras crônicas). Estão bem, mas não entendem o que aconteceu. Dá igual. Não importa. São coisas que acontecem. E tentam arrancar, mas não podem. Algo vai mal. Me chamam. Me aproximo. E eu não acho o que eu vejo. Dobraram o prato grande. Os muito brutos dobraram o prato como se fosse plasticina. Ficamos sem palavras que se possam pronunciar em horário infantil.

Se Salvador Dalí teria sido motociclista talvez teria imaginado algo parecido.

Há que pensar rápido. Há que encontrar uma solução. Há que seguir. Há que encontrar um alicate gigantes para arrancar o que resta de prato e seguir com os outros, enquanto você pode. Alexandre e Paulo, outros dois habituais na parte de trás do pelotão da Titan Desert, nos recomendam usar uma pedra de que estamos pisando.

Tomamos nota da ideia, mas o sistema troglodita não acabamos de dominar. Então aparece do nada e como por arte de magia, um homem viajando em um caminhão. Além de uma enorme sorriso traz consigo uma caixa de ferramentas. É chamado Ibrahim e vai se tornar o nosso mecânico de emergência. Desconhecemos se o regulamento prevê tais assistências como “legais”, mas ao nosso modo de ver, isso faz parte do encanto de viajar por um país em que a gente está sempre disposta a ajudar ao próximo. A partir de aqui, nos despedimos de Ibrahim com um forte aperto de mãos e eu faço uma foto com ele e com seus alicates. Só temos dois pratos, mas não nos rendemos.

Com Ibrahim, gratos, e seus alicates.

O próximo passo com o que presença é o anunciado portalón: de entrada não vemos muito bem por onde vamos subir as montanhas que temos diante de nós, mas a paciência e a perseverança em breve trazem frutos. O que parecia ser uma entrada para o reino das alturas acaba sendo um simples slide. Afonso amaldiçoa a orografia do Atlas. Lhe entendo perfeitamente, mas a verdade é que desde a minha bicicleta eu presiento e aproveite estas montanhas como um algo especialmente belo.

Tento me concentrar. Eu sei que logo vai chegar o momento da verdade. No perfil delinearam uma agulha pontiaguda que dá medo. Provavelmente teremos que andar um pouco, ontem. Sei que será um bom momento para liberar a Afonso de maior carga possível. Por isso, quando chegamos ao paredão e decidem andar alguns metros, lhes roubo o tandem, que aso pela potência com a mão direita e me escapo pista cima sem dar opção a resmungar. Aqui começa o meu trabalho. Noto como me sobe o pulso. Vou 175 batimentos. O tandem em uma mão. A minha bicicleta na outra. Os pés vacilam sobre as pedras do caminho, que de vez em quando dá uma breve trégua, mas eu passo quase uma hora empurrando. Os dois vêm logo atrás de mim, caminhando para a cimeira, que alcançamos felizes, cientes de que vamos limando metros da etapa maratona.

A descida é alucinante. Em um momento estamos no povo, que a partir de cima intuíamos entre o coqueiral, que se destacava sob as avermelhadas paredes do desfiladeiro. No abastecimento, fazemos cálculos. Vamos justos de tempo, não devemos perder nem um segundo, mas as forças começam a fracassar e agora vem uma longa subida, em que para mais INRI teremos o vento contra. É um planalto cheio de altos e baixos, em que não existe parapeito possível. O ritmo cai, mas não a vontade de continuar lutando. Eu através de um baque tremendo, ao meio-dia, até o km 70 de estágio. Sei que tenho de aguentar, manter o ritmo na frente, abrir um pouco de buraco na parede invisível que nos foi tirado Eolo. Eu sei que em algum momento voltarão as forças. Engenheiro tudo o que posso, mas o estômago também está cansado.

Subida forte saindo de um rio, um oásis e uma aldeia.

Ao cabo de um par de horas de subidas, entramos em uma aldeia e montar um novo espetáculo. Foi quebrada a cadeia. Para economizar tempo, nós colocamos um link rápido e seguimos quase sem parar. Ao cabo de um tempo, em uma descida, parece que a cadeia se tornou a sair. Ou é que estava errada (eu tinha-me encarregado de fazer isso). Dá igual. Ninguém protesta. Ninguém critica. Todos nós fazemos o que podemos.

A descida continua, muito rápido. O perfil desenha uma linha descendente quase até a linha de chegada, onde nos espera um repecho final de um quilômetro. Voltamos a ser otimistas. A bicicleta é tocada, mas se isso baixa chegamos a meta dentro do prazo máximo.

O leito do rio na parte final da etapa, tão belo como frustrante.

Mas não. Isso não baixa. Bom, baixe sim baixa, mas através de um oued em que para avançar a 8 km/h tem que pedalar com força. E isso quando não hás de andar sobre o infinito leito de seixos rolados. Afonso volta a praguejar. Tivemos a má sorte de chegar a este lugar precisamente hoje, mas sendo objetivos, o lugar é, sem dúvida, precioso. Passamos perto de vários povos situados junto ao rio, com as suas palmeiras e seus khasbas da adobe.

Cruzando o rio em um dos passos mais simples.

Em seguida, o rio começa a levar água. Cada vez mais. No primeiro construído meus meninos duvidam. Eu não. Eu tiro de cabeça. A água chega até nós por os joelhos. É melhor passar na mão, para evitar surpresas. O atravessamos uma dúzia de vezes, mas uma quinzena, antes de perder a paciência e tentar atravessá-lo sem saímos. Em uma destas, a corrente volta a sair. Mais dois minutos para colocá-la, mas três. O tempo voa e nós não. Ao sair do rio, espera-nos uma faixa larga de fácil rolar, mas o vento nos empurra para trás. Não quer que cheguemos. Estamos vazios, mas Afonso e Serafim seguem acoplados. É inacreditável. A última subida a encaramos sabendo que chegamos tarde. Nos faltar dez ou quinze minutos. O sol está se pondo e foi pintado o céu, de cor púrpura. A silhueta do tandem desenha uma imagem que tento captar com a câmera. Lhes vejo e compreendo o que é lutar juntos por um mesmo objetivo. Do início ao fim. Sem desconfiar do esforço incondicional e altruísta do outro.

Quando alcançarmos a meta, lá estão Félix Dot (diretor de prova) e Rúben Peris (responsável pela arbitragem), entre outros. Nos saúdam efusivamente, falam por pa, nos entregam um Powerade fresquito. É emocionante, mas, o público, experimento uma certa distância. Deveria ser, mas isso não é uma festa. Falha alguma coisa. Ali mesmo, Rúben lhe comunica a Serafim que chegamos tarde e que o controlo de chegada está fechado há 15 minutos. Nem os nossos nomes, nem o nosso patrocinador, a Fundação de Tecnologia Social, é apresentada nas tabelas a partir de agora.

A partir de agora, estamos fora da corrida. É como se tivéssemos abandonado. Não é justo, mas nós não fizemos o regulamento e também não somos os encarregados de aplicá-lo. Atrás de nós chegarão duas pessoas, já na escuridão da noite. A eles não lhes reconhecem o mérito de ter concluído a Titan Desert 2010.

A mim, pessoalmente, me importa muito pouco não aparecer em nenhuma classificação. A Serafim e Afonso acontece exatamente o mesmo. Mas os três por igual lamentamos que não exista uma lista que reconheça os que não desistem, os que lutam até o fim. Também nos incomoda que o regulamento se aplique às vezes sim, às vezes não. Ou, pelo menos, às vezes de uma maneira, às vezes, de outra. Se amanhã tiver outra fase difícil compreenderíamos a sua decisão, mas amanhã é um passeio de 55 km até Ouarzazate. O difícil fizemos já.

Tivemos má sorte hoje com o tandem. De não ter quebrado o prato no quilômetro 10 da fase, certamente teríamos chegado a tempo.

Dá-se o mesmo. Minutos depois do duro golpe da decisão do diretor de arbitragem, gostaríamos de entrar na tenda sala de jantar, onde 300 ciclistas são aquecidas as palmas durante um emotivo minuto em homenagem ao cenário que acabavam de completar Afonso e Serafim em tandem. Naquela noite, depois do jantar, eles não tinham vontade nem de tomar banho, nem de nada. Também não puderam dormir. A cabeça lhes dava voltas, como a mim. Queríamos uma explicação. Sentíamos raiva. Sabíamos que não era justo: apenas 15 minutos, depois de 12 horas de esforço.

500 metros antes da linha de chegada, o horizonte nos dá um pôr-do-sol esplêndido.Comentários Facebook

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