Crioterapia e outras técnicas de recuperação

O futebolista do Real Madrid, Cristiano Ronaldo tornou moda a crioterapia. Mas, você sabe em que consiste a crioterapia e para que serve?

crioterapiaHá alguns dias, com motivo da apresentação da notícia que informava sobre a recente aquisição de uma máquina de crioterapia por Cristiano Ronaldo, recebi vários tweets perguntando até que ponto este tipo de tecnologia era eficaz e se poderia ajudá-los a melhorar seus resultados. O que a priori parecia uma anedota tornou-se evento curioso quando recebi uma ligação de uma importante cadeia de televisão dizendo que iam fazer uma reportagem sobre este tipo de técnicas e novas tecnologias aplicadas à recuperação e à melhoria do desempenho. Ocorrido isso, e devido à impossibilidade de dar uma boa resposta sobre a crioterapia através dos 120 caracteres que me exige Twitter decidi escrever este post.

Em primeiro lugar, deveríamos nos perguntar para que servem as técnicas de recuperação, como a crioterapia. Estas técnicas podem ajudar-nos a recuperar do desgaste físico provocado pelo treino ou competição restaurando o equilíbrio necessário no organismo, chamado de homeostase, que nos permite produzir a máxima quantidade de energia possível, assim como restaurar os depósitos das diferentes fontes de energia, basicamente glicogênio, e reparar os tecidos danificados. Graças a isso, podemos voltar a treinar antes para o nível máximo, ou garantir o máximo desempenho em uma determinada data, como pode ser o dia de uma competição.

É fundamental ressaltar que não é uma boa ideia abusar deste tipo de técnicas, por duas razões: Em primeiro lugar, porque o processo de recuperação em si mesmo é parte da adaptação a um estímulo, se eliminarmos sistematicamente este processo estaremos lastrando nossa evolução. Um caso claro seria a aplicação de frio ou de qualquer outra técnica, medicamento ou tratamento que tem o objetivo de evitar uma suposta inflamação que deve acontecer se quisermos que nosso organismo envie os nutrientes e oxigênio necessário para reparar as estruturas danificadas. Não obstante, devido à própria natureza da alta competição, onde impera a necessidade de estar recuperado entre dias de competição sobre outras variáveis, e a natureza pouco de sacrifício de muitos atletas amadores que preferem não sentir dor, nem sequer umas ligeiras dores, se com um comprimido podem ajudá-lo, esta classe de técnicas continuarão a ser habituais. A outra razão pela qual não seria interessante utilizar este tipo de técnicas, ou pelo menos não usar sempre a mesma, é que também com o tempo o corpo se adapta a esses estímulos e, pouco a pouco vão perdendo eficácia.

Tal como disse antes, toda a recuperação passa pela reposição dos substratos energéticos, a reparação das estruturas ou tecidos danificados e a recuperação do equilíbrio perdido, ameaçando a homeostase necessária para que o organismo possa trabalhar a pleno rendimento. Ao final, tal como diz Joel Jamieson, é tudo uma questão de energia e, portanto, a recuperação não é mais do que devolver ao organismo a capacidade para produzir a máxima quantidade de energia.

Parte deste equilíbrio, além de recuperar o intervalo adequado de tensão arterial, pH sanguíneo, hidratação, glicemia e temperatura fora do qual o corpo não seria capaz de produzir energia ou pelo menos não a nível ideal, nos encontraríamos o desequilíbrio produzido entre os diferentes sistemas do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), sobretudo entre o sistema simpático e parassimpático. A partir de um ponto de vista bastante simplista, o primeiro estaria mais associado com atividades relacionadas com a geração de energia , enquanto que o segundo com o armazenamento e a conservação da mesma. O primeiro produz adrenalina e noradrenalina, e o segundo acetilcolina, três neurotransmissores fundamentais se queremos melhorar o nosso desempenho. Pois bem, todo estímulo que é susceptível de diminuir nosso desempenho e exigir uma prévia de recuperação antes de que o nosso organismo possa voltar a ser capaz de produzir uma óptima quantidade de energia provoca um desequilíbrio entre esses dois sistemas que fará com que a secreção de alguma/s destes neurotransmissores seja comprometida a afetar o desempenho. É, pois, objetivo prioritário de toda a ação de recuperação restabelecer o equilíbrio perdido, estimulando o sistema que está deprimido. Daí que nem todas as técnicas de recuperação adequadas para sempre, nem mesmo a crioterapia, já que se estamos certos e nós usamos uma técnica com efeito estimulante do sistema que está sobreestimulado estaremos, longe de facilitar a recuperação, provocando o efeito contrário.

Dentro das técnicas de recuperação de estimulantes do sistema nervoso simpático encontramos, principalmente, a redução do volume de treinamento, terapia intensiva de tecido profundo (fisioterapia), crioterapia, banho de água fria ou contrastes de temperatura. No caso de estarmos em um estádio dominante do sistema simpático, onde o mesmo se encontra deprimido, as melhores técnicas para estimulá-lo seria tudo aquilo que gera relaxamento como a meditação ou relaxamento miofascial, assim como qualquer terapia de tecido mole, sauna, hidromassagem ou banhos com água quente. Também seria interessante eliminar todos os estimulantes como a cafeína e aumentar as horas de sono e/ou aumentar o cochilos. Neste caso, ao contrário do que aconteceria no outro cenário, seria mais importante para reduzir a intensidade que o volume a ser esta variável do treinamento, o principal estimulante do sistema simpático.

Como você pode ver não é tão simples como comprar uma máquina e passar frio durante alguns minutos. Lembro-me que ao dizer isso mesmo no twitter, me disseram que um atleta profissional ou CR7 saberia usá-la para o que eu respondi que não duvidava disso, mas que acostumamos a dar a devida importância para os atletas profissionais e ao seu ambiente. Muitos vos vão puxando as mãos à cabeça, mas vou dar um exemplo. Conheço o caso de vários clubes de ponta que através de terapias de calor e frio não as utilizam, porque dizem que não funcionam. Paradoxalmente outros clubes de igual importância e concorrentes diretos, por não falar dos clubes mais importantes da NFL, NBA, MBL ou NHL a utilizam como parte fundamental de seu trabalho de recuperação. Além disso, é comum encontrar dentro dos clubes que têm vários responsáveis da parcela médica, como, por exemplo, primeiro computador e pedreira, têm opiniões diferentes a respeito, para não falar dos casos em que o médico e o preparador físico pensam de forma diferente. Desta forma, verifica-se que um mesmo computador de um ano tem sessões de contrastes de temperatura o dia posterior ao jogo, após este, ou após os treinos mais duros, e no ano seguinte os tem proibidos, porque o novo preparador físico ou médico responsável considera que, longe de ajudar, pode prejudicar.

E agora a pergunta do milhão… Como posso saber em que estado me encontro? A melhor maneira é através dos novos sistemas de medição da variabilidade do pulso, também chamado de HRV (Heart Rate Variability). A marca mais conhecida é Omegawave, um sistema que leva usando equipamentos como o Barcelona desde há anos para medir a recuperação de seus jogadores. O problema desta marca é que o sistema profissional tem um preço de 17.000€, enquanto que o amador, que excede ligeiramente os 100€ 80€ anuais, não tem em conta o stress neuromuscular, sendo interessante para esportes de resistência, mas não de força, ou naqueles onde a mudança de ritmo é uma vantagem competitiva. Outra opção interessante é o BioForce HRV (cerca de r $200), mas que não requer inscrição nem pagamento periódico. Além disso, este último permite observar em que estado se encontra (chave do sistema simpático ou parassimpático), escolher a técnica de recuperação que mais interessante se for, e observar como os sistemas vão se equilibrando.

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