A fraca relação entre dores musculares e resultados

É comum no setor da atividade física a consideração das dores musculares, como um método para avaliar a eficácia do treinamento. Também é…

reduzir-as-dores muscularesÉ comum no setor da atividade física a consideração das dores musculares, como um método para avaliar a eficácia do treinamento. Também é comum considerar certas muitas teorias relacionadas com a fisiologia, quando na maioria dos casos, não deixam de ser hipóteses sem demonstrar. Outra prática comum no setor, mas também em muitos outros, é jogar com a desinformação, os mitos e a ignorância dos clientes e praticantes habitualmente pouco e mal informados, para vender produtos ou serviços com base em argumentos de venda que, na maioria dos casos, não deixam de ser teorias, em outros mitos absurdos.

As dores musculares é um desses argumentos comuns que alguns usam para demonstrar a eficácia de um produto ou sistema de treinamento. Muitas vezes o anzol ou isca é oferecer um teste para depois, com base nas dores musculares obtidas, tentar justificar a eficácia do referido produto, serviço ou sistema e, desta forma, concluir a venda. Este sistema, evidentemente, é geralmente utilizado quando se carece de argumentos de mais peso.

Dentro da enorme quantidade de verdades absolutas, que não passam de teorias sem demonstrar estão as dores musculares. A teoria mais plausível, diz que eles são o produto de uma inflamação causada por microroturas microscópicas do tecido conjuntivo mas quando nunca chegaram a ser observado quando se praticou uma biópsia com este fim. Acredita-se também que as histamínicos e prostaglandinas, entre outros, são os causadores deste dor latejante ao agir sobre os nervos aferentes que transmitem essa sensação a partir dos músculos, ao sistema nervoso central.

O pouco que sabemos sobre as dores musculares é que o estresse sofrido pelo sistema muscular durante a fase excêntrica do movimento tem uma capacidade maior para causar esse desconforto, e que a duração é variável, começando às 6-8 horas de ter praticado exercício, podendo durar até 48h, mais mesmo se o estresse que temos submetido ao sistema excede em muito o nosso nível de tolerância.

Vou começar usando o bom senso para depois passar a ciência por trás das dores musculares e sua relação com a efetividade do treinamento. Se analisarmos o conhecimento atual existem alguns aspectos onde todos concordam. Em primeiro lugar, nem todo mundo tem dores musculares depois do treino, e aqueles que as têm revelam intensidades completamente diferentes, não obstante, foi observado que aqueles que têm laços NÃO obtêm melhores resultados do que aqueles afortunados que não. Por se fosse pouco, aqueles cuja genética lhes impede de ter laços com a facilidade de outros estão obcecados com treinar mais, buscándolas sem cessar, porque o mito sugere que de outra forma não obterá resultados.

Nem todos os músculos tiram as mesmas dores musculares. Há músculos que sempre têm mais dores musculares que o resto perante mesma intensidade de treinamento e observou-se que estes não são os que mais se desenvolvem. Além disso, as dores musculares são comuns em esportes de resistência como a maratona, quando se aumenta drasticamente a distância percorrida. A ciência nos diz que, nestes casos, o organismo responde aumentando a economia de recursos, a eficiência na obtenção de energia, o que se traduz comumente em menos massa muscular e não o contrário.

Também observamos que as dores musculares desaparecem conforme aumenta a freqüência de treino e a repetição dos mesmos exercícios, algo comum na musculação e em todo treinamento, cujo objetivo seja o desenvolvimento muscular ou hipertrofia. Pelo contrário, se quisermos manter dores musculares constantes seria tão simples como mudar drasticamente os exercícios praticados a cada dia, algo que iria contra o próprio efeito de supercompensação responsável pelo crescimento muscular, entre muitas outras adaptações.

Dito tudo isso, se vir um marciano e lesse o que eu escrevi, comprovará sua veracidade perguntar a qualquer um que tenha realizado o exercício de forma regular e uma certa intensidade, acabaria concluindo que tudo parece que não há relação entre dores musculares e resultados. Não obstante, um mito é um mito, e, infelizmente, costuma ser necessário algo mais do que senso comum para que o povo comece a ouvi-lo.

Aqueles que defendem as dores musculares como indicador da efetividade do treinamento baseiam-se na suposta relação entre estas e o dano muscular ou EIMG (Exercise Induced Muscle Damage). A relação entre EIMG e desenvolvimento muscular parece estar clara, conforme se pode observar no Review de Schoenefeld publicado no Journal of strength and conditioning research, em 2012. Não obstante, o mesmo autor rompe toda relação entre dores musculares e dano muscular associado ao crescimento muscular em um artigo publicado um ano mais tarde, em o Strength and conditioning journal. Segundo parece, ainda acrescentando, no futuro, que as dores musculares são essas microroturas que disse no início do post, não haveria qualquer relação com o tipo de dano associado ao crescimento muscular.

Alguns dos aspectos que têm em conta na hora de analisar a relação entre dores musculares e dano muscular associado ao crescimento (EIMD) é a fraca relação entre o tempo de evolução. Dito de outra forma, não coincide no tempo com o máximo de dano muscular observado com a intensidade das dores musculares que os indivíduos analisados reportam. Também um maior dano muscular foi associado com uma maior sensação de dores musculares, nem uma maior sensação de dores musculares com maior EIMG. Nem os músculos que quase nunca têm dores musculares têm que experimentar menor EIMG. Também não se observou relação entre dores musculares e CPK, outro marcador de dano muscular. Além disso, Paulsen (2012) observou que podiam ter dores musculares sem rastro de inflamação própria do EIMG. O mesmo aconteceu com Yu (2002), quando observou dores musculares de alta intensidade após a realização de exercício com alta carga excêntrica como andar/correr na descida ou descida de escadas de longa duração, mas nem rastro dos marcadores inflamatórios próprios do EIMG. A mesma história aconteceu a Malm (2000, 2004) com outro tipo de exercícios com um alto componente excêntrico.

Por se fosse pouco, as dores musculares podem chegar a ser um problema no dia-a-dia de um atleta. Demonstrou-Se como a própria sensação de estes furos musculares, ainda quando não são de alta intensidade, altera a cinemática do atleta, alterando a mecânica e, por conseguinte, aumentando o risco de lesão, por não falar dos treinos perdidos no médio e longo prazo.

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